Por Aloísio Lôbo
Recebi o resultado do exame como quem aguarda solenemente uma sentença do destino. Afinal, depois de certa idade, qualquer envelope fechado parece trazer notícias de territórios do corpo nunca antes visitados.
Abri o papel.
Lá estava escrito:
“Ectasias vasculares sutis à jusante da linha pectínea.”
Fiquei impressionado.
Não pela doença, que nem sei se é doença.
Pela elegância.
Existem pessoas que têm dor de barriga. Eu, não. Eu possuo ectasias vasculares sutis à jusante da linha pectínea.
É outro nível de sofisticação.
Imagine dizer isso numa conversa de botequim.
— E a saúde, como vai?
— Ah, meu caro, ando com umas ectasias vasculares sutis à jusante da linha pectínea.
O interlocutor imediatamente supõe que você frequentou universidades estrangeiras, escreveu tratados sobre física quântica ou, no mínimo, possui uma adega climatizada.
Os médicos têm esse talento extraordinário de transformar o cotidiano em literatura fantástica.
O encanamento do corpo entope? Não. Há uma alteração funcional do trânsito.
A pessoa engorda? Não. Apresenta aumento ponderal.
Um vaso sanguíneo aparece onde não devia? Também não. Surgem ectasias vasculares sutis à jusante da linha pectínea.
A vida inteira passamos acreditando que somos feitos de carne, osso e alguma teimosia. Então vem um exame e revela que somos um romance barroco escrito em latim.
Passei o resto da tarde observando meus semelhantes.
O padeiro carregava suas ectasias invisíveis.
O carteiro distribuía correspondências enquanto ocultava silenciosamente as próprias linhas pectíneas.
A moça da farmácia sorria sem saber que, por trás da aparência tranquila, habitava uma geografia inteira de palavras impronunciáveis.
Envelhecer é, também, isso.
Descobrir que o corpo não fala português.
Ele fala laudo.
E vai escrevendo suas memórias em capítulos cada vez mais curiosos.
Assim, seguimos vivendo.
Tomando café.
Pagando contas.
Guardando segredos.
E carregando, com uma dignidade quase científica, nossas discretas e elegantes ectasias vasculares sutis à jusante da linha pectínea.
Algumas pessoas envelhecem.
Outras apenas acumulam expressões médicas capazes de impressionar a vizinhança ou que podem se transformar em croniquetas.



