O samba amazonense perdeu, na segunda-feira (26), um de seus nomes mais marcantes. Aos 63 anos, morreu em Manaus o compositor Paulo Juvêncio de Melo Israel, conhecido como Paulo Onça, referência da Escola de Samba Vitória Régia e da música popular brasileira.
Internado desde o fim de 2024, Paulo Onça enfrentava complicações provocadas por uma agressão violenta, ocorrida durante uma discussão de trânsito. Foram mais de cinco meses de hospitalização até a despedida.
Das rodas de bairro aos palcos do Rio
Natural de Manaus, Paulo começou a compor ainda na adolescência. Aos 16 anos, já era presença constante nas rodas de samba da cidade. Em 1990, escreveu seu nome na história da Vitória Régia ao levar a escola ao título com o samba-enredo “Nem Verde e Nem Rosa”.
O talento atravessou o rio e chegou à Marquês de Sapucaí. No Rio de Janeiro, atuou como compositor no Salgueiro e na Grande Rio, dividindo letras com ícones como Zeca Pagodinho, Jorge Aragão e Arlindo Cruz. Músicas suas foram gravadas por grandes nomes, reforçando sua trajetória como símbolo de criatividade e resistência cultural.
“Ajudou a divulgar o nosso samba para o Brasil inteiro”, afirmou Iomar Japonês, diretor do grupo de acesso do Carnaval de Manaus.
O cantor Junior Rodrigues destacou o papel do artista na conexão entre os sambistas da capital amazonense e o cenário carioca. “Ele foi pioneiro em trazer artistas do Rio, muitos shows, e com isso as informações de samba que estavam rolando lá. Manaus é uma filial do samba carioca, e muito disso vem de Paulo Onça, de Chico da Silva. A gente está cantando samba por causa desses caras que são nossas referências.”
Despedida na quadra onde brilhou
O velório foi realizado na terça-feira (27), na quadra da Vitória Régia, na zona Sul de Manaus — o mesmo espaço onde Paulo Onça tantas vezes fez sua arte ecoar. No lugar da batucada, o silêncio do luto. Amigos, familiares, admiradores e nomes importantes do carnaval manauara compareceram para se despedir.
“O samba começou com Onça, essa malandragem que o samba amazonense não tinha. Nas várias vezes que ele foi ao Rio, trouxe isso pra gente”, relembrou o amigo Alfredo de Carvalho.
O desembargador Ari Moutinho também prestou homenagem. “O legado dele é eterno porque vai ficar gravado nos sambas, numa roda de samba, em uma boemia. Onde tocar um samba-enredo ou um pagode, estará o Paulo Onça.”
A fã Ana Rodrigues fez questão de agradecer. “Pra mim, pra nossa família e os amigos, o samba está de luto porque perdeu um grande compositor.”
Memória viva
Histórias, lágrimas e abraços preencheram o velório. Entre as homenagens, um gesto comovente: integrantes do Boi Garantido entoaram uma toada composta por Paulo Onça, unindo as tradições do samba e do boi-bumbá em um mesmo tributo.
O filho Paulo Sávio lembrou a trajetória do pai com emoção. “Ele deixou um legado para o Amazonas. Foi um dos melhores daqui e teve seus dias de glória no Rio como o único brasileiro, sem ser carioca, a ganhar um samba-enredo lá. Quase impossível.”
A mãe, Rute Israel, recordou com carinho do filho. “Nessa idade, com 63 anos, ele ainda chegava na minha casa, pedia bênção e passava lá todo dia de manhã.”
A esposa, Simone Andrade, destacou o orgulho que sentia. “Ele dizia que cada escrita é um filho, mas que nada é nosso, nem o pensamento. Eu tinha muito orgulho dele e é isso que vou levar comigo.”
O compositor Chico da Silva também esteve presente. “Ele tinha muito pra dar. A perda é muito sentida porque fico pensando no que mais viria de coisas bonitas.”
Nas redes e no coração
As homenagens também tomaram conta das redes sociais. O governador Wilson Lima destacou a importância de Paulo Onça para a cultura amazonense. Já o cantor Zeca Pagodinho, amigo próximo, enviou mensagem de solidariedade à família.
*Com informações do repórter João Paulo Oliveira



