A dificuldade de conciliar maternidade e estudos ainda é uma realidade para muitas jovens brasileiras. Na Universidade Federal do Amazonas, a estudante de Química Adriele vive esse desafio diariamente. Ela cursa a graduação no período noturno e enfrenta um obstáculo recorrente: não ter com quem deixar a filha, Alícia, de sete anos.

A situação já a fez cogitar desistir da universidade diversas vezes. “Ela é minha filha, ela não me deve nada, mas a minha vida gira em torno dela. Tudo o que eu vou fazer é pensando nela”, relata. Adriele destaca ainda que busca a formação como forma de melhorar a qualidade de vida da família, mas precisa adaptar a rotina acadêmica às necessidades da filha.

Para enfrentar realidades como essa, a UFAM inaugurou a Cuidoteca Amazônia, um espaço de acolhimento voltado para filhos de estudantes durante o período noturno. A proposta não é substituir creches ou escolas, mas oferecer suporte às famílias. “Não pretende ser uma creche, não pretende ser uma escola, é um espaço de acolhimento. Muitas mães acabam desistindo da universidade ou faltam às aulas porque não têm com quem deixar seus filhos”, explica a coordenação do projeto. “A cuidoteca vem para complementar essa política de cuidado e ser um espaço seguro.”

A iniciativa é resultado de uma parceria entre a universidade e o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. No local, serão oferecidas atividades lúdicas, recreação, contação de histórias e apoio às necessidades diárias das crianças.

O espaço atenderá crianças de 3 a 12 anos, incluindo filhos de estudantes de graduação, pós-graduação, além de servidores, técnicos administrativos e professores. “O projeto é muito potente porque está aqui para acolher e cuidar. Talvez seja a primeira política que inclui também filhos de trabalhadores terceirizados”, destaca a organização.

A inauguração contou com auditório lotado e marcou o início das atividades, com capacidade inicial para atender 40 crianças. A universidade já planeja ampliar o projeto. “Vamos expandir com recursos próprios para atender também no horário diurno, começando pelos filhos de estudantes indígenas, que culturalmente trazem as crianças para a universidade e muitas vezes não têm onde deixá-las”, informou a gestão. Também está prevista a abertura de edital para contemplar estudantes do turno diurno.

A universitária Edmara Alves, do curso de Licenciatura em Formação de Professores Indígenas, aguarda a ampliação, mas já considera a iniciativa um avanço. “A implantação de uma política de cuidados é essencial para nós. Muitos estudantes estão em formação e não têm com quem deixar suas crianças, como é o caso da nossa turma. É um projeto que garante esse amparo para que possamos continuar nossos estudos”, afirma.

Para Adriele, a criação da cuidoteca representa uma mudança concreta na sua rotina e na permanência na universidade. “Sempre tinha essa dificuldade de com quem deixar ela. Essa iniciativa é maravilhosa, porque agora posso trazer minha filha comigo, não perder aula e continuar minha trajetória acadêmica”, comemora.

Reportagem: Wesley Lira
Imagens: Cleber Maia
Adaptação: Jéssica Laíza

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