Benzedeiros e rezadeiras seguem mantendo viva, em Manaus, uma tradição de cura que resiste ao tempo. Essas práticas, que atravessam gerações, continuam presentes no cotidiano de muitos amazonenses, baseadas na fé, no uso de plantas medicinais e em saberes populares transmitidos dentro das famílias.
“Eu tive meus dois filhos quando eu era criança e rezava e eu via que eles melhoravam”, relembra uma moradora.
Um dos representantes dessa tradição é Arcírio Negreiros, conhecido como Siroca. Ele afirma que seu trabalho envolve diferentes técnicas e práticas espirituais. “Trabalho de puxação, trabalho de tirar porcaria do corpo da pessoa, fechação de corpo, puxo barriga, costuro rasgadura, desvinte duro, benzo, dor de cabeça, quebranto, vento caído, tudo isso eu faço”, explica.
Na capital amazonense, esse tipo de cuidado segue sendo transmitido de geração em geração, mantendo um conhecimento que faz parte da identidade cultural da região.
Siroca conta que aprendeu ainda na infância, observando a própria mãe. “Quando eu deitava, eu acordava, a minha mãe entrava de novo fazendo a mesma coisa. Aí ela conseguia fazer uma cruz. Pronto. Aí no outro dia, na outra noite, eu já sabia orações pra dor de cabeça, pra amaldiçada, pra espinha”, relata.
Com o tempo, ele passou a dominar outras técnicas. “Já sabia pegar desvinte duro, já sabia costurar rasgadura. Eu aprendi a não falar baixo. Quando eu vou rezar nos pacientes, eu falo pra eles escutarem se é uma desvinte duro”, diz.
Para ele, é fundamental que o paciente participe do processo de cura. “Eu boto pra eles escutarem que o meu dom foi esse, o que eu fui ensinado foi assim. Não foi só pra mim, não. Eu quero que o paciente ouça também o que eu tô falando”, afirma.
Essas práticas têm origem em tempos anteriores à medicina moderna, quando o cuidado com a saúde estava ligado ao conhecimento popular e à observação da natureza. Em Manaus, esse saber permanece vivo em diferentes espaços da cidade.
No Mercado Adolpho Lisboa, por exemplo, a tradição se mantém por meio da venda de ervas medicinais e produtos naturais. O local reúne conhecimentos que têm origem na mistura de influências indígenas, africanas e europeias, formando o chamado saber amazônico.
“A fé em primeiro lugar. Primeiro aquele lá de cima, depois vem a cura através das ervas”, destaca a comerciante Ângela, que atua há mais de 50 anos no mercado.

Pesquisas acadêmicas também reforçam a importância dessas práticas. A professora Leina Regina Tavares estuda o tema e destaca a resistência desse conhecimento ao longo do tempo. “Eles carregam esse conhecimento, um conhecimento que foi invisibilizado com o apagamento cultural, mas ele está presente até hoje”, afirma.
Segundo ela, esse saber está diretamente ligado à identidade amazônica. “Porque a gente tem esse fio que nos conecta, isso que não deixa a gente fugir da nossa própria essência amazônica”, explica.
Para os praticantes, a fé é parte essencial do processo de cura. “Não quero que vocês tenham fé em mim, quero que vocês tenham fé em Deus, porque foi Ele que me deu esse dom”, afirma o benzedor.
Mesmo diante das transformações da sociedade, a tradição segue viva. “Isso para mim é muito gratificante, eu trabalhar com o dom que Deus me deu, eu tenho toda certeza que eu estou ajudando bastantes pessoas”, diz.
A crença também é vista como fundamental para os resultados. “Agora tem que ter fé, tem que crer, porque se tu não crer… não adianta rezar, orar, não adianta nada. Tu tem que crer, crer no Papai do Céu”, completa.
Enquanto houver quem cultive ervas, mantenha as rezas e valorize os ensinamentos dos mais antigos, o conhecimento dos benzedeiros e rezadeiras continuará resistindo ao tempo e fazendo parte da vida de muitos amazonenses.

Matéria: Paulo Paixão
Imagens: Bosco Mendonça, Francisco Barroso e Henri Clay
Adaptação: Douglas Lima



