A cheia dos rios no Amazonas avança e já afeta diretamente a rotina da população. Com volumes de chuva acima da média e sob influência de fenômenos climáticos globais, o Estado vive uma nova emergência hídrica. Até agora, 28 municípios decretaram situação de emergência, e mais de 260 mil pessoas foram impactadas.
Em Manaus, o nível do Rio Negro chegou a 28,49 metros nesta segunda-feira (26), apenas 51 centímetros abaixo da cota de inundação severa. A capital já está em estado de alerta. Nas feiras, a alta dos rios compromete o abastecimento de alimentos vindos do interior e pressiona os preços. Vendedores relatam dificuldade para manter o fornecimento de produtos básicos.
“Tudo depende da enchente dos rios. Principalmente o queijo tá em falta, porque o gado subiu para terra firme e não se alimenta o suficiente pra fazer o queijo”, conta o feirante Alexsandro Silva.
A feirante Daiane Lima tenta driblar o desabastecimento. “Aqui, a gente consegue contornar armazenando a mercadoria”, disse. “Na cheia, ele não tem produto pra trazer, porque tá tudo alagado. Eles ficam lá mesmo. Então as vendas caem muito. Aí falta farinha, e a farinha sobe [de preço]”, afirma o feirante Chagas Alves.
A situação varia de acordo com a bacia hidrográfica, como explica o meteorologista Francis Wagner, professor da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). “Na bacia do Rio Negro, em Manaus, estamos com a cota no limiar superior da normalidade. Já na bacia do Madeira, o pico foi em abril e agora começou a descida. O Solimões continua subindo, e Itacoatiara também. Essa variação espacial da chuva dentro da bacia gera uma dinâmica diferente entre norte, sul, leste e oeste.”
A cheia de 2025 parece ser mais um marco em uma sequência de extremos. Em 2021, o Rio Negro atingiu 30,02 metros em Manaus — a maior cota já registrada. Dois anos depois, o mesmo rio chegou ao nível mais baixo em mais de um século: apenas 12,70 metros.
“O que influencia principalmente a subida dos rios são as regiões de cabeceira. Se houver grande contribuição da parte norte da bacia e do Alto Solimões — entre Iquitos, no Peru, e a região central —, esse é o principal fator. É preciso que chova de forma distribuída para termos o chamado inverno amazônico”, destaca a superintendente do Serviço Geológico do Brasil em Manaus, Jussara Cury.
Diante do cenário, o Serviço Geológico e a Defesa Civil intensificam o monitoramento dos rios e adotam medidas emergenciais para mitigar os impactos. As ações envolvem desde o mapeamento de áreas de risco até o alinhamento com órgãos de saúde e educação.
“A Defesa Civil vem fazendo reuniões semanais com vários órgãos — saúde, educação, entre outros — para que estejam cientes dos prognósticos que temos elaborado aqui para o ano hidrológico”, ressalta o geólogo da Defesa Civil do Amazonas, Igor Jacaúna.
A previsão é de que o pico da cheia ocorra até julho. Até lá, o nível dos rios seguirá sob vigilância constante — e a população, sob os efeitos de um fenômeno que vem se repetindo com cada vez mais intensidade.
*Com informações do repórter Hemerson Freitas



