Festival movimenta economia criativa e amplia oportunidades para trabalhadores da cultura
Para quem assiste o espetáculo no Bumbódromo de Parintins (distante 369 quilômetros de Manaus), as apresentações duram por duas horas e trinta minutos por noite. Nos galpões, ateliês e espaços de preparação, porém, essa história começa muito antes. É ali que trabalhadores transformam habilidades, memórias e experiências de vida em parte da apresentação que emociona milhares de pessoas durante o Festival de Parintins.
Realizado pelo Governo do Amazonas, por meio da Secretaria de Cultura e Economia Criativa, o Festival movimenta uma ampla cadeia produtiva que gera emprego e renda em diferentes áreas. Mas, entre muitos dos profissionais envolvidos na construção do espetáculo, existe um sentimento que vai além da atividade profissional: o vínculo com o boi-bumbá.
No Boi Garantido, há quem tenha crescido dentro da agremiação, acompanhado transformações ao longo de décadas e construído uma relação que mistura trabalho, tradição e pertencimento. São histórias de pessoas que ajudam a erguer o espetáculo ano após ano e que enxergam no boi uma parte importante de suas próprias trajetórias.
Uma vida dedicada ao Garantido
Há mais de cinco décadas ligada ao Boi Garantido, Edna Maria Matos construiu sua trajetória passando por diferentes funções dentro da agremiação. Já integrou tribos coreografadas, atuou como batuqueira ao lado do marido, participou como bandeirista e confeccionou chapéus para a Batucada. Hoje, é a costureira mais antiga do ateliê e responsável pela costura da barra oficial do boi de arena.
Para Edna, o trabalho realizado nos bastidores representa mais do que uma atividade profissional. “Eu tenho muito prazer em trabalhar pelo Garantido, não só pelo dinheiro, mas pela emoção. Nós damos o nosso sangue”, afirma.

Ao longo dos anos, acompanhou de perto as transformações do boi e conciliou diferentes funções durante a preparação para o festival. “Quando eu era batuqueira, eu já trabalhava aqui. Muitas vezes saía do ateliê direto para o ensaio. Era cansativo, mas eu não faltava”, relembra.
Segundo Edna, a oportunidade de contribuir para a construção do espetáculo é motivo de orgulho. “É emocionante quando vemos o nosso trabalho na arena. Às vezes eu penso: fui eu quem fiz isso. É uma sensação muito especial”, declara.
A costureira destaca ainda que o trabalho desenvolvido no galpão representa uma importante fonte de renda para diversas famílias que retornam todos os anos para participar da preparação do festival.
Arte que gera oportunidades
Sócio fundador do Boi Garantido, Afonso Kranio atua na produção artística do espetáculo há décadas. Com experiência em carnavais de São Paulo e trabalhos de escultura e topiaria, ele integra a equipe responsável pela construção de elementos alegóricos apresentados na arena.
Para o artista, o impacto econômico do festival vai além dos profissionais diretamente envolvidos na criação das alegorias. “Não só me ajuda, mas também ajuda as pessoas que trabalham ao meu redor, como costureiras, aderecistas e outros profissionais. São pais e mães de família que fazem parte dessa construção”, explica.

Com dois meses dedicados à produção das estruturas que irão para a arena, Afonso destaca que a apresentação do resultado ao público representa a conclusão de um longo processo coletivo. “É um momento único ver a nossa obra entrar na arena. Para mim, é o reconhecimento de todo o trabalho desenvolvido durante esse período”, afirma.
Segundo ele, o festival também evidencia os talentos existentes em Parintins e em toda a região amazônica. “Não é difícil chegar a Parintins e encontrar pessoas que possuem habilidades e conhecimentos para trabalhar na construção desse espetáculo. O festival cria oportunidades para que esses talentos sejam valorizados”, observa.
A força dos kaçauerés
Entre os profissionais que garantem o funcionamento do espetáculo estão os Kaçauerés, responsáveis pela movimentação das alegorias e pela logística interna durante as apresentações.
Valdenor Santos atua há 30 anos no Boi Garantido e, há 18 anos, coordena as equipes de kaçauerés. Atualmente, cerca de 200 trabalhadores integram o grupo sob sua coordenação.
“É um trabalho importante para todos nós. São quase 200 homens envolvidos e muitos são pais de família. O festival representa uma oportunidade de renda e uma ajuda importante para o sustento de muitas casas”, afirma.

Além da geração de renda, Valdenor destaca a responsabilidade envolvida na função. “Temos que cumprir nosso trabalho de forma organizada e com muito compromisso. Existe todo um treinamento para quem chega e vai atuar conosco”, explica.
Torcedor do Garantido desde a infância, ele afirma que a ligação com o boi vai além da atividade profissional. “Eu sou trabalhador, mas também sou torcedor. Tenho muito orgulho de fazer parte dessa história”, declara.
Fomento à economia criativa
Além de promover cultura e preservar tradições, o Festival de Parintins desempenha papel importante na geração de emprego e renda em diferentes áreas da economia criativa. Ao apoiar a realização do festival, o Governo do Amazonas contribui para o fortalecimento de uma cadeia produtiva que transforma conhecimento, criatividade e trabalho em oportunidades para centenas de famílias, consolidando o Festival de Parintins como um dos principais motores da economia cultural da região.

FOTOS: Gabi Vitim / Secretaria de Cultura e Economia Criativa
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